Nos bastidores do RAAM

Quinze dias na competição mais difícil do mundo

Por Leandro Bittar *

Sete dias, dez horas e oito minutos de prova entre as praias de Oceanside, no Pacífico, e Annapolis, no Atlântico. Três refeições convencionais, duas delas macarrão. Um banho de mangueira na beira da estrada e outros dois na pia do Walmart. Incontáveis visitas ao banheiro ao ar livre. Quatro horas de sono por dia. Integrar uma equipe de apoio no Race Across America é menos desgastante do que pedalar a prova mais difícil do mundo, porém, é um desafio pessoal no mesmo nível.
Convivendo com o limite da exaustão física e mental, a revista VO2 acompanhou o RAAM 2010. Três mil milhas – 4.800 km – de oeste a leste, passando por 13 estados norte-americanos. Um país inteiro visto de uma forma completamente diferente do que qualquer rota turística pode oferecer, do belo visual californiano, do deserto do Arizona, das montanhas do Colorado, dos campos de trigo no Kansas, das ameaças de tornado no Missouri, do extremo calor de Ohio e das montanhas finais antes de chegar a Maryland.
Ao todo, 15 dias intensos (incluindo pré e pós-prova) com a equipe brasileira Race Brasil, que competiu na categoria quarteto com Ricardo Arap, Clauber Tieppo, Luiz Augusto Milano e Ricardo Roldão.
Nove pessoas estiveram ao lado dos ciclistas, incumbidas de deixá-los concentrados “apenas” nas seis horas de pedalada – em média – distribuídas ao longo do dia: Mario Sanchez, Acácio Lang, Péricles Simões, Fábio Nutini, André Pelegrino, Leandro Bittar, Henrique Lopes, Armando Maria e Gabriel Cassiolato. Uma agenda agravada pelas peculiaridades dessa competição, na qual comer e dormir em um veículo sempre em movimento, por si só, já são dramáticos. Durante a semana de prova, perde-se, inclusive, a referência de quando termina um dia e começa outro. Aliás, com quatro mudanças de fuso, perde-se qualquer referência de tempo.  
Porém, não se engane. O RAAM é o tipo de evento do qual pode-se ficar reclamando durante horas, mas que deixa saudades antes mesmo de terminá-lo. O desejo de retornar é iminente. É uma experiência dura, mas inesquecível. A tensão é companhia constante. Desde a montagem dos veículos, a adaptação ao regulamento, a compra das provisões até o final da prova, a limpeza dos carros e a entrega nas locadoras. Tudo é mais complicado do que aparenta. E o pior: é viciante. Mesmo que você tenha tempo para descansar, dificilmente, vai conseguir se desligar do que está acontecendo na prova.

Estratégia
 
Para este ano, a equipe Race Brasil decidiu competir com dois veículos: uma van e um “motorhome”. A missão da van era basicamente manter o ciclista amparado e na rota correta. Ao “motorhome” cabia dar suporte à van, receber e liberar os ciclistas nos pontos de revezamento, alimentá-los e, quando possível, servir de dormitório. Nessa logística, quatro pessoas ficaram encarregadas de revezar pilotagem e navegação na van e outras quatro fariam o mesmo no “motorhome”. O nono integrante era o responsável pela alimentação dos atletas e, quando possível, dos estafes.
O principal objetivo da equipe é manter os ciclistas pedalando da forma mais concentrada possível. De acordo com o combinado por eles mesmos, os atletas se alternariam de hora em hora durante o dia e de duas em duas horas durante a noite, permitindo seis horas de descanso noturno. Mas nem sempre funcionou assim. Um equipamento quebrado, como o que aconteceu com Ricardo Arap durante uma tempestade no Missouri, ou um mal-estar, como sofreu Clauber Tieppo no interminável Kansas, sobrecarregam os demais participantes para suprir a momentânea ausência do companheiro.
A tecnologia talvez seja o maior parceiro para tornar a competição menos difícil. Celular, internet, rádio e, principalmente, o GPS. A navegação já derrubou grandes projetos e não é difícil perder o caminho nas desertas estradas do centro do país. Quarenta quilômetros na direção errada representam quase cinco horas de prejuízo para a equipe e uma ducha de água fria no ânimo do time. Mas dois itens bem mais rudimentares são a verdadeira salvação: “silver tape” e “tire up”. Tudo – tudo mesmo – pode ser resolvido com esses dois itens.
Com tantos detalhes em jogo, a desistência do chefe de equipe Antonio Costa na semana anterior à viagem deixou todos angustiados. Depois de centralizar as funções nos meses que antecederam a prova, compromissos profissionais inviabilizaram sua participação. Mario Sanchez, integrante do time com experiências anteriores no RAAM, foi promovido à função de líder e o ex-ciclista profissional Acácio Lang foi convidado para compor o grupo - duas decisões importantes para o desenrolar da prova.
Ninguém recebe dinheiro para estar ali. A maioria do time é formada por pessoas muito bem sucedidas nas suas profissões. Médicos, engenheiros, arquitetos, de alguma forma envolvidos com o ciclismo e apaixonados pela prova. Mas a exigência é de como se fosse um profissional do setor. Ninguém pode falhar. Mas falham. Não tem como passar incólume pela prova. Não sem uma dose de estresse, claro.

Os atletas
 
O perfil da equipe Race Brasil tem algumas distinções em relação ao tipo de competidor tradicional do RAAM. Primeiramente, não são superatletas, acostumados a superar grandes desafios desse tipo, como Daniela Genovesi, que venceu no ano passado, ou Claudio Clarindo, que já completou a prova duas vezes. São pessoas comuns, que conciliam a vida profissional e pessoal com o desejo de pedalar. Com exceção de Ricardo Arap, que venceu a prova na categoria duplas em 1998, tentou o solo duas vezes e completou em um quarteto no ano passado, os demais ciclistas eram estreantes na prova. Outra equipe brasileira participou da prova no quarteto misto, a Enjoy the Ride, que completou a prova em 8 dias, 18 horas e 32 minutos.
Outra diferença em relação aos outros times, em grande maioria, é que o Race Brasil não pedalava por uma causa. No RAAM 2010, muitas equipes tinham uma mensagem ou pedalavam para arrecadar fundos para alguma instituição. Desde os conhecidos profissionais do time Type 1, que divulgam a luta contra diabetes, até o quarteto que promovia a busca pela cura da doença de Huntington.
Muitos dos atletas são portadores dessas doenças e o discurso de um deles na chegada em Annapolis resume a inspiração para esse tipo de desafio. “Quando foi diagnosticada a minha doença, começaram a falar sobre como eu encararia a morte. Eu preferi buscar alternativas para continuar encarando a vida. Por isso eu estou aqui hoje”, afirmou Kyle Bryant, que convive com a doença de Friedreich ou esclerose espinhal hereditária, doença que limita os movimentos do corpo.

A semana

Seduzidos pelos excelentes preços do mercado norte-americano, os ciclistas cederam a um dos erros mais primários do esporte: competir com equipamento novo. As sapatilhas com tacos novos logo deram problemas e foram descartadas. Dores na lombar fizeram Ricardo Roldão abandonar o modelo de contrarrelógio e pedalar apenas com a bicicleta nova, que, teoricamente, seria usada apenas em caso de emergência. Sem clipe, essa bike o deixava em dificuldade para andar no ritmo dos demais. Situação corrigida apenas no trecho final de prova, quando conseguiram comprar um clipe.
No RAAM, é muito difícil a relação entre o que você pode forçar sem quebrar e a vontade de andar mais rápido do que os adversários pelo caminho. Por mais que o discurso interno fosse completar a prova, todos queriam um bom resultado. A categoria 40 a 50 anos, na qual o time estava inscrito, foi uma das mais concorridas desta edição e logo no começo foi difícil manter contato com os primeiros colocados.
Como referência, existiam algumas equipes de outras categorias, como um time feminino e também uma equipe espanhola, com bons ciclistas, mas que errou inúmeras vezes a navegação, comprometendo a prova. Logo depois, ficamos sabendo que um atleta da equipe sofreu um acidente e foi levado ao hospital. Os espanhóis deixaram a prova, mas o ciclista não corre risco de morte.
Nosso time também passou por um incidente. Um dos nossos integrantes se apoiou na porta do “motorhome”, que abriu, e foi jogado para fora. Por sorte, nada grave aconteceu e ele resistiu até o final da prova. Isso, porém, teve um impacto na rotina da equipe, que precisou suprir a ausência dele nas tarefas.
Com o tempo, os ciclistas começam a ficar resistentes aos inúmeros suplementos recomendados e à dieta rígida. Passaram a sonhar com comidas de qualidade nutricional duvidosa, porém, saborosas. Como disseram, queriam “graxa”. Uma forma carinhosa para se referir à gordura.
O acúmulo do cansaço com a rotina no “motorhome” começou a levar todos a pensarem em chegar logo ao final da viagem. Mudaram o esquema de revezamento para 30 minutos durante o dia, na tentativa de dinamizar o processo, mas ninguém tinha energia suficiente para manter o pique. No final, foi o momento de voltar ao foco: completar a prova com segurança. As esposas dos ciclistas ainda viajaram para Annapolis para recepcionar o time, o que aumentou a emoção dos atletas no final da empreitada. No dia seguinte, o trabalho ainda não tinha terminado. Era hora de limpar tudo e planejar a entrega dos veículos. Claro, foi também o momento de pensar no próximo ano. O RAAM 2011 já começou.


* O jornalista viajou a convite da Race Brasil


 

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